Jane Kawakami, 54, divorciada, três filhos e... estagiária. Elieser Guilherme, 40, casado, uma filha e... estagiário. Como eles, há cerca de 7.200 profissionais com 40 anos ou mais ocupando esse cargo só no banco de dados do Centro de Integração Empresa-Escola -20% mais do que havia em 2013.
A expansão do financiamento no ensino superior que ocorreu nos últimos anos, via Fies (Fundo Investimento Estudantil) e Prouni (Programa Universidade para Todos), foi o empurrão que faltava para que insatisfeitos com a carreira se dessem uma segunda chance.
"Essa fase dos 40 anos é propícia porque a pessoa já tem uma casa própria, já criou os filhos, e aí ela vai fazer o que gosta", avalia Rafaela Gonçalves, especialista em treinamento do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube).
Aos 52 anos, Kawakami decidiu estudar serviço social. Ela conta que sempre quis ter uma formação superior, mas priorizou o casamento e os filhos. Com a independência deles e a separação do marido, conseguiu parte do tempo e dos recursos que precisava para fazer a faculdade.
O restante, ela complementa com uma bolsa do Prouni. Como o curso é a distância, ela conseguiu manter o emprego de atendente em um posto de saúde na parte da manhã e, à tarde, dedicar-se ao estágio.
Há quase dois anos, é estagiária no Instituto de Medicina Avançada. No começo, ela diz ter ficado apreensiva -depois dela, a estagiária mais velha tem 20 anos.
Mudanças de rota como a de Kawakami refletem a transformação do conceito de carreira vivida pela geração hoje na faixa dos 40 anos, explica a professora Aline Souki, da Fundação Dom Cabral. São profissionais que entraram no mercado quando o mais importante era ter um bom salário e estabilidade.
Atualmente, a satisfação pessoal também entrou na conta, o que tem motivado profissionais a repensarem suas carreiras, priorizando o prazer em vez da renda.
Essa vontade é uma das principais vantagens do estagiário mais velho em relação ao jovem. "Como ele está se realizando, é muito mais produtivo, além de ter experiência em outras áreas e ser mais maduro", avalia Souki.
"Quando você está recomeçando, você não quer perder tempo, tem mais comprometimento", defende Elieser Guilherme, 40, estagiário no departamento jurídico do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.
Guilherme deixou o cargo de gestor comercial para cursar direito, plano que adiou por anos. Ele espera que o estágio o ajude a entrar no mercado de trabalho da nova área e diz que não estranha o fato de sua chefe, a advogada Andrea Leandro, 37, ser mais nova do que ele.
Mas cenários que envolvam uma diferença de idade grande entre chefe e subordinado podem causar problemas se a empresa não estiver preparada para lidar com isso, dizem especialistas.
Para Souki, o estagiário mais velho precisa ter a mente aberta para não estranhar a inversão de papeis, ao responder a um superior jovem.
Já o gestor tem que levar em conta a insegurança desse estagiário, que questiona sua decisão de mudança, afirma Guilherme Françolin, da consultoria Santo Caos.
Fonte: UOL - FERNANDA PERRIN
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