
Tudo depende de como é cada pessoa e também da cultura na qual está inserida. Nossa sociedade é capitalista e valoriza mais o "ter" do que o "ser" ? e talvez isso justifique o porquê de se incentivar o consumo.
É difÃcil não ser materialista em uma sociedade que estimula o consumo e a aquisição de bens. Mas nem todo mundo é influenciado pelos apelos para adquirir o tablet mais sofisticado do mercado ou o carro do ano. Para especialistas, tudo depende das caracterÃsticas de cada um e na cultura na qual se está inserido.
"Nossa sociedade é capitalista e valoriza mais o 'ter' ao 'ser'", analisa a psicanalista e psicóloga Cynthia Boscovich. De qualquer forma, a educação e o ambiente podem influenciar. "Nós aprendemos com o que vemos, sentimos e ouvimos. Portanto, tanto um quanto o outro são determinantes para a construção de crenças e valores", completa a psicóloga Fernanda Mion, especializada em programação neurolinguÃstica.
"Com o estilo de vida moderno, em que não há tempo para nada e tudo tem que ser 'para ontem', os relacionamentos estão cada vez mais frouxos ou até descartáveis. Tudo isso permeia o estilo de vida e as relações pessoas e sociais", observa, também, Boscovich. Dessa forma, é muito fácil se render a tantas demandas e se apegar mais aos valores materiais.
Eu quero, você quer, todos querem
Há que se considerar, ainda, que o bombardeio dos itens de consumo pela mÃdia parece não ter fim. Às vezes, pode parecer impossÃvel resistir ao apelo de tantas "novidades", que inclusive se mostram cada vez mais acessÃveis, ao alcance de qualquer um.
De qualquer forma, ser materialista não significa necessariamente um "defeito". "Pode ser que tal aspecto não interfira no dia a dia e nas relações a ponto de trazer prejuÃzos. Só há problemas se esse lado prejudica o cotidiano do indivÃduo. Precisamos entender, e aceitar, que cada pessoa é um ser único, com nuances de personalidade relacionadas ao ambiente e à cultura em que vive", ressalta Boscovich.
O sinal de alerta deve ser acionado quando o sujeito "perde" partes importantes da sua existência porque está muito apegado às conquistas materiais.
"O exemplo tÃpico é o pai, provedor, sempre ocupado em trabalhar e oferecer o máximo para sua famÃlia. Não raro, quando se dá conta, os filhos cresceram e ele nem aproveitou, conviveu", diz Mion.
Conhecer-se é o que importa
Então, é importante tomar cuidado para não afirmar que um indivÃduo não-materialista é melhor ou pior do que outro com tal caracterÃstica. "Ser materialista não é sinônimo de ter problemas, mas sim de viver de um jeito que, no entender de muitas pessoas, pode ser estranho", diz a psicanalista Boscovich, acrescentando que "o essencial é que o sujeito se sinta bem".
O que não deveria faltar é a busca pelo autoconhecimento. "Tal estudo faz o paciente entrar em contato com suas questões. Dessa maneira, é capaz de elucidar dúvidas relacionadas a si mesmo e o quanto a escolha de viver deste ou daquele jeito é espontânea, vem de dentro ou é ditada por regras sociais. O segredo é sentir que suas opções são feitas na primeira pessoa, considerando aquilo em que acredita, sem se preocupar demasiadamente com a opinião alheia."
Mion observa que o processo psicoterapêutico leva ao reconhecimento de pontos em que precisamos nos desenvolver, auxiliando na mudança de comportamentos e atitudes.
E no outro extremo do materialismo estaria alguém "espiritualizado"? Boscovich diz que nem sempre: "Conheço muitas pessoas espiritualizadas que também são materialistas. Cada um é cada um, pois o ser humano é complexo e dinâmico, então não devemos rotular."
Rosana Faria de Freitas - Do UOL, em São Paulo