No final do mês passado, a afirmação do presidente de uma famosa marca de roupas americana (febre entre os adolescentes) foi bastante criticada nas redes sociais. De acordo com o executivo, a marca de roupas deles era feita para pessoas magras e bem sucedidas.

A reação – além das reclamações e pedidos de boicote da marca – foi uma série de ações feitas por alguns internautas: alguns distribuíram roupas da marca para os mendigos do bairro enquanto outros passaram a questionar o ideal de beleza e sucesso.

Nos EUA e Reino Unido também ocorre algo semelhante a respeito do chamado “tamanho zero”, ou seja, a menor padronagem de uma roupa existente no mercado e, normalmente, usadas pelas esquálidas modelos de passarela.

Seguindo esses modelos de beleza, muitas pessoas procuram fazer de tudo para chegar a esse “tamanho” e o assunto, inclusive, foi destaque no jornal inglês The Guardian. Para você ter uma ideia, as medidas de uma pessoa que veste um tamanho zero são o equivalente a 79 cm de busto, 56 cm de cintura e 81 cm de quadril.

Em termos comparativos, uma criança entre oito e dez anos com tamanho e peso normais também possuem aproximadamente esta mesma medida de cintura (e um pouco menos de quadril). Outra coisa importante: muitas adolescentes de 14 anos já estariam fora dessas medidas, pois a média de medidas no busto já ultrapassaria o “tamanho zero”.

É bom lembrar também que algumas pessoas até podem ter naturalmente estas medidas, devido ao seu porte físico, mas todas estas questões envolvendo a busca da redução das medidas do corpo tem aumentando de maneira expressiva.

E você, também se preocupa com suas dimensões corporais? É quase impossível achar alguém que diga “não”, entretanto, algo indica que isso está virando uma verdadeira obsessão.

Problemas de imagem corporal já chegam ao universo infantil

Quase metade das crianças entre 3 e 6 anos, acompanhadas por uma pesquisa da Universidade da Flórida Central, EUA, disseram estar preocupadas com o fato de estarem gordas.

Antes mesmo de começarem a frequentar a escola, muitas dessas meninas já se incomodam com a autoimagem. E quase um terço das entrevistadas mudariam sua aparência, como peso ou cor dos cabelos, por exemplo, o que é incrível em uma idade tão prematura. O número de meninas com pouca idade insatisfeitas com seu peso deixou os pesquisadores bastante preocupados. As implicações desse fato podem contribuir, além de maiores níveis de ansiedade infantil, para uma maior propensão ao desenvolvimento de transtornos alimentares no futuro.

E você sabe onde isso tem origem?…

Segundo um estudo publicado no British Journal of Developmental Psychology, parte do problema estaria no tempo de exposição a imagens de revistas e programas de televisão que mostram mulheres magras vivendo sempre grande sucesso. Ou seja, a superexposição à mídia onde esses modelos são repetidos a exaustão pode, de alguma maneira, influenciar como essas crianças percebem seus corpos (criando assim, desde cedo, um verdadeiro fetiche pela magreza).

Outro achado importante: atitudes da família a respeito do corpo dos filhos também tem se mostrado decisivos (como crítica e comentários feitos pelos pais, irmãos, primos e colegas também influenciam em como essas crianças percebem seu próprio corpo). Além disso, a forma como os pais tratam seus próprios corpos (se muito exigentes ou igualmente insatisfeitos), também atuam, moldando tendências nos pequenos de se autocriticarem em excesso.

Autoimagem e Imagem Corporal

A grande questão a ser percebida é que, cada vez mais, as pessoas – mesmo que de forma inconsciente – acabam atrelando uma autoimagem de valor a um corpo mais magro.

Eu explico: Autoimagem diz respeito ao conhecimento que se tem de si próprio (por exemplo, como alguém possuidor de atributos como perseverança, inteligência, teimosia etc) e imagem corporal diz respeito à figura que formamos em nossa mente a respeito de nosso próprio corpo frente a nós mesmos e a terceiros (sou magro, gordo, alto, baixo etc).

Como muitas pessoas convivem rotineiramente com uma baixa autoimagem (ou seja, estão emocionalmente insatisfeitas com sua vida), buscam mudar seus corpos, por acreditarem ser mais fácil. Ou seja, ao invés de procurarem um maior bem-estar emocional, procuram compensar isso emagrecendo.

Assim, engajam-se na busca incessante de um maior padrão de beleza (tentando melhorar sua imagem corporal). Desta forma, como mudar emocionalmente é algo mais difícil, procurar então moldar seus corpos torna-se o caminho mais rápido de aumentar o valor pessoal e desta forma compensar o sentimento de infelicidade.

Moral da história: Confundem as coisas e acreditam que ter um corpo bonito alivia o mal estar psicológico interno.

O que muitas pessoas não sabem, entretanto, é que o sentimento de beleza e de atratividade corporal nada mais é do que o resultado de um estado de equilíbrio interno. Tanto é verdade que quanto mais contente e satisfeita uma pessoa esteja com ela mesma, menores serão suas insatisfações a respeito de suas medidas corporais. Pelo menos isso é o que estas pessoas acham que aconteceria a elas, mas na verdade isso raramente ocorre.

Leitor, diga-me se você nunca conheceu alguém assim? Uma pessoa, por exemplo, que esteja fora dos padrões corporais ditados pela mídia, porém possuidora de grande charme? Pois bem, é exatamente isso que estou tentando lhe dizer.

Nem de longe estou sugerindo qualquer forma de descaso com o próprio corpo, evidentemente, mas apontando apenas que talvez o estado de satisfação com seu corpo não passe exclusivamente pelas academias.

Ao se perceber isso, é possível que estas pessoas não mais busquem encontrar o “tamanho zero” nos shoppings e academias e compreendam finalmente o que o célebre escritor libanês Kahlil Gibran quis dizer quando afirmou que: “A beleza não está na cara; a beleza é uma luz que vem do coração”.

Dr. Cristiano Nabuco

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