Houve um tempo em que os anúncios de emprego exigiam “boa aparência”. A expressão caiu em desuso, nestes tempos politicamente corretos. Na real, continua valendo. Em lojas de grife, vendedores são escolhidos a dedo. Criou-se até uma categoria de “garçons chiques” para eventos. Costumam ser estudantes ou modelos com falta de trabalho em moda. Cobram mais caro, mas são mais bonitos e bem apresentados. Há agências especializadas nesse tipo de profissional. Considera-se a aparência dos garçons mais importante que a experiência. Se algum deles derrubar a taça de vinho no decote da convidada, ela certamente sorrirá, desculpando o gato desajeitado. Aparência vale, eis a questão. Simplificando: alguém contrataria um personal trainer gordo? Eu, nunca!

No livro Capital erótico (Honey money), a autora Catherine Hakim afirma que a aparência tem tanta importância no mundo dos negócios como qualificação, instrução e experiência profissional. Lançou o conceito de “capital erótico”, que define como “uma obscura, embora crucial, combinação de beleza, sex appeal, capacidade de apresentação social e habilidades sociais”. Quando vi o livro, a ideia sintetizou uma impressão que eu tinha sobre o mundo, sem nunca ter verbalizado. Tanto como eu, a maioria das pessoas se constrange em dizer que um certo grau de atração física é útil na competição profissional. Em televisão, onde trabalho, isso é um pouco mais óbvio. Existem modelos de beleza, incorporados pelas heroínas e pelos galãs de novelas. Há espaço para todos os tipos físicos – mas a aparência conduz o ator para papéis específicos. De jeito nenhum me refiro a relacionamentos sexuais estabelecidos no ambiente de trabalho. Mas à impressão que a pessoa causa. Outro dia, eu estava conversando com um amigo que levou um golpe financeiro de um sujeito que mal conhecia.

– Ele era supersimpático! –, disse.
Rebati:
– Um vigarista de sucesso tem de ser simpático. Para vender um carro usado todo detonado, o cara tem de inspirar confiança, sorrir…

Não é uma questão propriamente de beleza. Eu mesmo, modéstia à parte, sempre despertei a confiança alheia. Quando era repórter, me espantava com as confissões absurdas que me faziam durante as entrevistas, como se eu fosse um velho amigo. Para depois se arrepender quando eram publicadas. Algumas pessoas têm jeito de gente boa, mesmo tendo um coração cheio de espinhos como eu – reconheço! O exemplo extremo é Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque, que matou várias mulheres em São Paulo, em 1998. Hoje cumpre pena. Era um motoboy nada bonito. Conseguia se passar por um caça talentos de uma revista. Convencia as vítimas a ir ao Parque do Estado para uma “sessão de fotos”, para depois se lançarem como modelos. Como elas caíam nessa conversa? Ainda mais com as notícias de um serial killer agindo na região? Ele certamente parecia do bem.

“O hábito faz o monge”, diz um ditado popular. O jeito de se vestir é determinante no “capital erótico”. Não me refiro ao exibicionismo das periguetes, ideal para candidatas a rainhas de bateria, mas prejudicial no mundo dos negócios. É difícil alguém resolver uma aplicação financeira com uma gerente de banco supermaquiada, de saia curtíssima e botinhas brancas. Grandes corporações costumam ter códigos escritos ou induzidos de como os funcionários devem se vestir. Há algum tempo, entrevistei uma arquiteta para a reforma de um imóvel. Quando apareceu coberta de joias e cabelo espantosamente loiro, desisti. Pensei: “Se ela não tem gosto para se arrumar, como será na hora de pensar minha casa?”.

A aparência conta desde sempre. Teodora, de Bizâncio, no século VI, era uma dançarina equestre. Casou-se com Constantino e se tornou imperatriz. O casal foi fundamental na consolidação do Cristianismo. Exemplos de mulheres e homens que subiram por meio da aparência são constantes ao longo da história.

Não há uma regra óbvia. Na área da internet, adequação significa despojamento. Na judicial, impera o tom clássico. Preconceito existe: gordos têm menos chances. Pela minha observação e pelas conversas com empresários, tendem a ser discriminados na colocação profissional. Obesidade é confundida com desleixo. O importante é admitir a existência do “capital erótico”, se olhar no espelho e decidir o que mudar na aparência. Para conquistar um emprego ou uma promoção, é tão importante quanto um bom currículo.

Por WALCYR CARRASCO
é jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão

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