É comum que a pessoa sinta por você algo que a mantém por perto, mas que, desgraçadamente, não é desejo

Tenho uma amiga que diz que as pessoas não sabem ler sinais. Elas não percebem – ou fingem não perceber – quando suas investidas românticas não dão certo. Na primeira e na segunda aproximação, diz minha amiga, fica a impressão de empenho e sinceridade, que sempre têm seu charme. Depois, a imagem da pessoa que liga, convida e se oferece incansavelmente, que está sempre ali, como um labrador com o frisbee na boca, vai piorando na medida da insistência exagerada, até virar motivo de escárnio e de piadas. Quem age assim acha que a atenção indesejada está mantendo uma porta aberta. Minha amiga garante que esse comportamento manterá a porta fechada para sempre. A dela, ao menos.

Eu digo à minha amiga, e repito aqui, que não se deve julgar apaixonados e carentes com rigor. Eles não sabem o que fazem. São carregados por sentimentos mais fortes do que eles. Quem nunca fez papel de bobo nessa vida? Quem nunca insistiu até ser humilhado? Eu já cometi esse erro tantas vezes que ele poderia ter virado meu nome do meio. E nada garante que não voltarei a cometê-lo. Quem está vivo corre o risco de se encantar e fazer bobagens.

Há gente que simplesmente mexe com a gente. Você conhece, balança de levinho, e, dias depois, quando percebe, já está na ponta dos pés, quase levitando de esperança. Faz poemas, manda mensagens com fotos, cobre de pequenas atenções aquela criatura irresistível. Tudo seria lindo se a outra parte sentisse o mesmo, mas frequentemente não é o caso. É comum que a pessoa sinta por você algo que a mantém por perto, mas que, desgraçadamente, não é desejo. Você, apenas você, tem vontade de passar a mão naqueles cabelos. Só você tem vontade de beijar. Do outro lado há carinho e simpatia, mas isso não trará ninguém ao telefone se você ligar na sexta-feira à noite. Nem fará com que procurem por você na noite de sábado.

Como se resolve um caso desses?

A escola dos durões diz que há somente um jeito: detectada a rejeição, você vira as costas e sai andando. Com o tempo, esquece. O lema desse pessoal é simples: “Quem espera nunca alcança”. Quem dirá que estão errados? Está estatisticamente demonstrado que os pessimistas costumam ter razão. Sabidamente é necessário fechar uma porta para que outra se abra. Interromper um fluxo para que outro tenha início. Quem age assim não passa vergonha e nem perde tempo. Não fica pendurado a esperanças que não se realizam. Avança rapidamente em direção ao futuro e às possibilidades reais da existência. Eu mesmo já disse isso num texto recente. No entanto…

No entanto, há coisas tão bonitas que talvez devam ser vividas e experimentadas. Em vez de correr do NÃO, ficar e transformar a relação. Isso não significa seduzir a todo custo, mas sim deixar-se seduzir pela amizade que o outro oferece. Se a pessoa é verdadeira, se ele gosta de você, por que as coisas têm de ser somente daquele jeito, do seu jeito? Ah, mas eu quero tanto… Será mesmo?

Muito do que a gente deseja não passa de capricho. Somos máquinas sofisticadas de inventar vontades. A gente quer a beleza do outro. A gente quer a personalidade atraente do outro. A gente quer tomar posse, devorar, pegar o outro para si, ser amado por aquilo que a gente admira. Quando ele se nega, ficamos inconformados e ressentidos. Então decidimos ir embora. Mas isso, francamente, não faz o menor sentido. Num caso ou outro de sentimento muito agudo, vá lá. Mas, como regra? Não…

Certas coisas, ainda que muito belas, ainda que as queiramos demais, simplesmente não serão nossas. Essa é uma ficha que tem de cair em algum momento. Não é possível ter todas as pessoas que a gente deseja. Não dá para atrair todo mundo que nos interessa. Por que, então, não se relacionar de forma menos imperativa com quem está à nossa volta? Algumas vezes teremos amor, outras vezes teremos sexo, de vez em quando teremos amizade. Haverá ocasiões em que teremos tudo isso junto, e outras em que teremos absolutamente nada. Não nos faria mal se aceitássemos esses fatos com simplicidade.

Se isso parece uma espécie de derrotismo afetivo, não é.

Apenas começo a perceber, tardiamente, que algumas coisas irão acontecer, e outras não. E, cada vez mais, e de uma forma suave e irreversível, começa a me parecer um grande desperdício jogar gente legal pela janela por que não quer transar ou se envolver romanticamente comigo. Ou com você. Há outras formas de partilhar sentimentos além do erotismo. Outro dia, fui almoçar com uma mulher risonha e perspicaz que conheço há mais de 10 anos. Ela continua muito atraente e eu continuo muito atraído, mas não rola. Ainda assim, é bom estar com ela. Rimos, trocamos histórias, nos olhamos com uma faísca submersa de afeto e provocação, mas tudo para, com mistério e naturalidade, antes de cruzar uma linha invisível. Ela ama outro homem. Nós somos amigos. O desejo está lá, como está em toda parte, mas apenas torna o encontro inesquecível.

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